O fim de mim

Na manhã em que eu morri,nada mudou.O céu continuou azul,as pessoas permaneceram insatisfeitas com suas vidas pacatas e salários mínimos.Alguns sorriam,esboçavam alegria mascarando os seus vazios.Talvez eu esteja enganado,e ao enxergar suas tristezas,comparo-as às minhas dores.Na manhã em que eu morri,o cachorro  latiu nas ruas a procura de um lar,e as nuvens passearam lentas,suaves como algodão.A cada minuto,um novo formato.O trânsito não parou,o vai e vem dos carros era caótico,bem como o engarrafamento da noite anterior.

Na tarde em que eu morri,parei para observar a trágica cena ao meu redor: O sangue escorria na escrivaninha,manchando o piso branco,formando pequenas bolhas coaguladas.No chão,formou-se uma pequena aquarela.Ainda não acredito na expressão facial que o meu pálido rosto entre luzia . Meus olhos entreabertos,esboçavam a alegria de alguém que acreditou no ditado "partir para uma  melhor".O meu pescoço desdobrou-se em um ângulo desproporcional.Assim que a lâmina pincelou a garganta,cesta horou.O silêncio orquestrado era perturbador.
Enxerguei um novo mundo.
Foi então que percebi que não poderia voar para onde eu quisesse.

Na noite em que eu morri,descobri o preço da do esquecimento.Libertei-me da existência,do peso de ser alguém.Mas que loucura,eu nunca havia sido ninguém.Infelizmente o vazio não preencheu-se.Senti-me a mesma,como se ainda necessitasse de pequenas doses do oxigênio.Quando eu morri,perdi a minha alma,a sua essência.E até hoje,enquanto vago pelas ruas,percebo que a minha morte não fizera diferença alguma para os viventes,apenas ao meu corpo deformado,que agora encontra-se à sete palmos do inferno.  

-@meendexleu

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